Historiador Yves Léonard lança livro sobre capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho

Estamos a poucos dias de um novo aniversário da revolução do 25 de Abril em Portugal, uma ocasião para recordarmos uma das suas figuras cimeiras, Otelo Saraiva de Carvalho, que é o objecto de uma biografia elaborada por Yves Léonard, historiador que nestas últimas três décadas publicou inúmeros livros sobre a História de Portugal.

« Otelo, la voix de la révolution des œillets », « Otelo, a voz da Revolução dos Cravos » é o nome da nova obra publicada pela Chandeigne & Lima, que Yves Léonard lançou no passado dia 15 de Abril em Paris. Neste livro, o historiador recorda esta figura controversa do passado recente de Portugal, um capitão de Abril que, no decurso dos anos 80, foi acusado de ter ligações com grupos armados em Portugal.

Nascido a 31 de Agosto de 1936 em Maputo, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho é filho de um funcionário dos Correios e cresce no seio de uma família ligada, pelo avô, ao mundo do teatro. Depois de frequentar o ensino secundário público de Maputo, ele destina-se a uma carreira de actor, o jovem Otelo tendo veleidades de ir para o « Actor’s Studio » em Nova Iorque. O destino – e sobretudo o pai – vão encarregar-se de o fazer ingressar na Academia Militar aos 19 anos. Ele estará em serviço activo durante as guerras de libertação de Angola e na Guiné-Bissau, nos anos 60 e início de 70 Será durante os derradeiros anos desses conflitos, que vai crescer dentro dele e de outros militares o projecto de derrubar o regime fascista português.

De regresso a Portugal em 1973, envolve-se no Movimento das Forças Armadas e, juntamente com outros capitães, assume a liderança da Revolução dos Cravos a 25 de Abril de 1974. Uma caminhada sobre a qual Yves Léonard destaca que « antes de tudo, Otelo é o homem de África » e que « isto é muito importante para compreender o personagem ».

« Otelo é um militar, mas não por convicção. Penso que, antes de tudo, Otelo é um actor. Gostava muito do teatro. Otelo tem um avô que é um antigo oficial do Exército português. Portanto, tem uma grande admiração pelo avô. É importante na hora de tomar a decisão de entrar na Academia Militar e depois, nos anos 60, obviamente, é o tempo das guerras coloniais e para Otelo é um momento muito importante. Porque Otelo é um oficial intermédio, isto é, um capitão », começa por dizer o estudioso.

« Em África, durante as guerras coloniais, há uma tomada de consciência em torno do sistema salazarista com o papel muito importante das colonias. E para Otelo, há a consciência de que a guerra é o problema maior de Portugal e que a violência não é a resposta », diz o historiador.

Ao destacar o papel de Otelo durante o 25 de Abril, Yves Léonard também recorda que, depois, « durante o PREC, Processo Revolucionário em Curso, Otelo tinha um papel muito importante, porque era o chefe do COPCON e o chefe da Região Militar de Lisboa. Tem um papel muito importante durante a crise do fim de Setembro de 1974, durante a crise do 11 de Março de 1975, e depois, durante o « Verão quente » e no mês de Novembro de 1975. Mas aí já não tinha o controlo da situação política em Portugal ».

Entrevistado pela radiodifusão portuguesa precisamente um ano após a revolução, Otelo Saraiva de Carvalho não esconde a alegria e o orgulho que continua a sentir depois do 25 de Abril de 1974.

Mas efectivamente, neste período em que ele assume um papel preponderante no PREC, começam a surgir as primeiras divisões entre as correntes mais reformistas e as franjas mais à esquerda da revolução.

Estas dissensões vão culminar com a desestabilização do 25 de Novembro de 1975. A partir daí, Portugal marca uma viragem mais à direita e em 1976, o general Ramalho Eanes torna-se o primeiro Presidente eleito depois da revolução de Abril, com um pouco mais de 61% dos votos face a Otelo, cuja candidatura recolhe cerca de 16% dos votos.

Na primeira metade dos anos 80, Otelo está em ruptura total com o rumo seguido por Portugal na altura. Ele lidera um movimento, o chamado « Projecto Global », que será acusado de ter elos com grupos armados de extrema-esquerda como as FP 25, Forças Populares do 25 de Abril, que cometem ataques semelhantes àqueles que acontecem na mesma altura na Itália ou em França.

« É difícil de dizer exactamente o que se passou, porque, por um lado, Otelo tinha vontade de fazer um projecto político com o poder popular que se chama ‘Projecto global’. É um projecto muito ambicioso. No fim dos anos 70, no início dos anos 80 e no mesmo tempo, aparece um grupo muito violento, com atentados terroristas que se chamam FP 25, Forças Populares do 25 de Abril. O problema é fazer uma ligação entre o ‘projecto global’ de Otelo e as FP 25. É muito difícil saber exactamente qual é a natureza dessa relação. Mas em Junho de 84, o poder político, o Ministério da Justiça e a polícia têm a convicção de que Otelo é o chefe, senão o inspirador das FP 25« , recorda Yves Léonard.

Em 1987, Otelo é condenado a 15 anos de prisão por ser considerado responsável das actividades das FP 25.

As circunstâncias em que Otelo é condenado geram um debate de largos anos em Portugal, ao ponto que sob o impulso dos socialistas então no poder, uma maioria de parlamentares amnistia Otelo em 1996. Esta medida não deixa de gerar polémica no seio da direita que acusa a esquerda de querer « apagar » a História.

A seguir à amnistia, virá mais tarde um novo processo em 2001 durante o qual a justiça vai considerar que não existiam elementos suficientes para estabelecer que Otelo tivesse um qualquer elo com as FP 25.

« Temos um julgamento no Tribunal da Boa-Hora no início de 2001 para dizer que Otelo não é responsável, não é o inspirador, não é o chefe das FP 25. É uma decisão de Justiça. Isto é uma forma de verdade. O problema é que depois da amnistia, depois o julgamento da Boa-Hora, muitas pessoas em Portugal continuam a pensar que Otelo é o responsável das FP 25, é uma terrorista. E a imagem de Otelo é péssima », constata o universitário.

Apesar de uma decisão favorável da justiça, o nome de Otelo passou a ter um rasto de pólvora de forma duradoira.

Paradoxalmente, ele continua a ser acarinhado no exterior, nomeadamente em França, onde várias personalidades do mundo político, nomeadamente o próprio Presidente François Mitterrand, ou artistas como o cantor popular Renaud, não escondem a sua admiração pelo militar que tem uma aura romântica. Para Yves Léonard, este fenómeno explica-se pelo facto de « a Revolução dos Cravos ter sido a última revolução do século XIX, isto é, uma revolução romântica ».

A aura de Otelo e dos restantes capitães de Abril vai inspirar vários filmes, documentários e reportagens. No ano 2000, estreia o filme ‘Capitães de Abril’ da actriz e realizadora portuguesa Maria de Medeiros. Presente na apresentação do livro de Yves Léonard, ela recorda a figura de Otelo que conheceu quando era criança.

« Realmente eu conheci-o. Eu era muito novinha, adolescente, e lembro-me de ter dançado um rock and roll com o Otelo e era a primeira vez que eu dançava assim com os movimentos do rock and roll em Lisboa, num restaurante que é o ‘Brazuca’, que era um lugar muito importante para os capitães de Abril, onde eles se reuniam muito. Depois, quando preparei o meu filme Capitães de Abril. Obviamente, falei muito com o Otelo, também com o Salgueiro Maia e, sobretudo, passei realmente 13 anos da minha vida a fazer pesquisa e a ler tudo o que eu conseguia encontrar nessa época publicado e às vezes sem estar publicado do que eles escreveram. É um privilégio extraordinário da nossa geração, da nossa infância, de miúdos lisboetas, de muitos de nós, termos coincidido com essas figuras importantes da nossa história », diz a cineasta que lamenta a actual tentativa de minimizar o legado do 25 de Abril no espaço público em Portugal.

« Infelizmente, eu acho que estes movimentos revisionistas de extrema-direita que alastram não é uma coisa que seja, nem é nada português. Na verdade, acho que é uma importação. É como uma marca importada de outros países, porque está a acontecer por toda a parte. Os discursos são os mesmos. O descrédito atirado para cima da honra não é de quem de facto lutou. É vergonhoso », denuncia Maria de Medeiros.

Volvidos 52 anos, o campo conservador está no poder em Portugal e a extrema-direita, em posição de força na Assembleia da República, tenta corroer a herança do 25 de Abril. A questão da memória torna-se tanto mais premente que as testemunhas directas da revolução dos cravos vão partindo. Otelo faleceu a 25 de Julho de 2021, num relativo esquecimento e sem grandes homenagens nacionais.

« O que é muito importante, com o 25 de Abril é o papel dos capitães. Os grandes testemunhos da época, obviamente, 50 anos depois, os heróis desaparecem. Por exemplo, Otelo morreu cinco anos atrás, em 2021. E é difícil falar desse período sem os grandes actores do 25 de Abril. É um problema clássico na disciplina da História, a memória, os testemunhos e a história. É importante fazer e dizer a História. É um período complexo porque estamos entre a época da memória, com a presença dos grandes actores do 25 de Abril e o período da História. O problema hoje, é a tentação de dizer que o período antes do 25 de Abril não foi um período tão difícil. É um grande perigo para a democracia portuguesa », considera Yves Léonard para quem « é muito importante hoje sublinhar o papel fundamental da ruptura do 25 de Abril » que marcou « um novo tempo para Portugal, para a democracia em Portugal e para a democracia na Europa ».

« Otelo, obviamente, é o homem do 25 de Abril, o instigador que simboliza os Cravos de Abril », conclui o historiador.

Liliana Henriques

Para ouvir o podcast clique AQUI.

Otelo la voix de la révolution des œillets – Yves Léonard

  • Yves Léonard, grand spécialiste du Portugal contemporain, signe une biographie attendue d’Otelo Saraiva de Carvalho, l’un des stratèges de la révolution des Œillets — figure complexe, iconique et ambivalente, à la fois victorieux et vaincu par les moulins à vent de l’idéalisme.
  • Contrairement aux hagiographies militantes ou aux pamphlets révisionnistes, Léonard adopte le regard distancié de l’historien professionnel : dissocier le mythe de la réalité sur un militaire devenu révolutionnaire, adulé, puis ostracisé et emprisonné avant d’être amnistié.
  • Au moment où le Portugal voit prospérer un courant national-populiste révisionniste sur l’héritage du 25 avril, ce livre arrive à point nommé pour restituer la complexité d’un processus ni conte de fées pacifique ni échec total.

Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, né le 31 août 1936 à Lourenço Marques (actuel Maputo au Mozambique) et mort le 25 juillet 2021 à Lisbonne, fut l’un des stratèges de la révolution des Œillets. Mais réduire Otelo à cette seule dimension serait porter une injure à la complexité du personnage. Léonard le saisit dans toute son ambivalence : figure iconique, mais pas le Che Guevara, ni le Fidel Castro — même la figure du Don Quichotte ne lui sied parfaitement. Pourtant, il y a beaucoup du personnage cervantin chez cet Otelo à la fois victorieux et vaincu par les moulins à vent de l’idéalisme et du réalisme, égaré dans le labyrinthe d’un processus révolutionnaire et d’une transition démocratique dont il fut l’acteur et la victime.

Une approche méthodologique rigoureuse

L’un des principaux mérites de l’ouvrage tient à son approche méthodologique. Contrairement aux hagiographies militantes ou aux pamphlets révisionnistes, Léonard adopte le regard distancié de l’historien professionnel. Il s’accorde à dissocier le mythe de la réalité en essayant de dire la vérité sur un militaire devenu révolutionnaire, adulé, puis ostracisé et emprisonné, avant d’être amnistié. Cette approche dépassionnée n’empêche pas l’empathie. Léonard parvient à restituer la trajectoire extraordinaire d’un homme qui, en juillet 1974, fut temporairement promu au grade de général de brigade et nommé commandant de la région militaire de Lisbonne et chef du COPCON (Comando Operacional do Continente), avant de connaître une chute vertigineuse.

La biographie suit un parcours chronologique qui permet de comprendre comment un jeune officier formé dans les guerres coloniales portugaises devint le cerveau de la révolution. En service actif en Angola de 1961 à 1963 en tant que sous-lieutenant, puis capitaine de 1965 à 1967, il sera en poste en Guinée-Bissau en 1970 sous les ordres du général António Spínola. C’est dans ces colonies, théâtres d’une guerre sans issue qui épuisait le Portugal, qu’Otelo développa sa conscience politique et sa critique du régime. Léonard montre brillamment comment l’expérience coloniale radicalisa une génération d’officiers qui allaient renverser la dictature.

« Le 25 avril 1974 à 0 h 25, la radio nationale diffuse Grândola, vila morena, une chanson révolutionnaire de Zeca Afonso évoquant la liberté, la démocratie et le respect. C’est le signal que s’est donné le Mouvement des forces armées pour s’emparer des points stratégiques du pouvoir. »

Le 25 avril 1974 et ses lendemains

Le cœur de l’ouvrage porte évidemment sur le rôle d’Otelo dans la planification et l’exécution du coup d’État du 25 avril 1974. Léonard s’appuie sur une documentation solide pour reconstituer les détails de cette opération militaire devenue une révolution populaire. Mais l’auteur ne se contente pas de glorifier cette journée emblématique. Il analyse les dix-huit mois qui suivirent, période de bouillonnement révolutionnaire où Otelo, proche de la fraction la plus à gauche, se voit progressivement marginalisé à mesure que le Portugal devient une démocratie européenne classique.

C’est peut-être dans sa narration de la chute d’Otelo que le livre atteint ses sommets. Après le coup d’État du 25 novembre, il est démis de ses fonctions à sa propre demande. Deux mois plus tard, il est arrêté au motif d’abus de pouvoir. En 1976, il tente une reconversion politique, se présentant comme candidat à l’élection présidentielle : il arrive second avec 792 760 voix (16,46 % des suffrages exprimés), loin derrière le général Eanes. Otelo incarne cette figure du romantique révolutionnaire confronté aux réalités impitoyables de l’Histoire.

L’épisode FP-25 et la complexité d’une affaire

L’épisode le plus controversé de la vie d’Otelo, son implication présumée dans le mouvement FP-25, est traité avec nuance. Léonard présente les faits sans trancher définitivement sur la culpabilité d’Otelo, restituant la complexité d’une affaire qui divisa profondément l’opinion portugaise. Au-delà de la biographie individuelle, Léonard utilise la trajectoire d’Otelo comme un prisme pour éclairer l’histoire du Portugal contemporain. C’est le situer dans son temps et en faire une figure majeure de l’Histoire du Portugal au XXe siècle.

Les tensions entre les différentes tendances du MFA, les espoirs d’une transformation sociale profonde, l’échec relatif du processus révolutionnaire, la normalisation démocratique — tous ces phénomènes historiques majeurs sont incarnés dans le destin d’Otelo. Léonard réussit ce tour de force de faire d’une biographie individuelle une histoire de la transition démocratique portugaise dans toute sa densité et ses contradictions.

« Ni le conte de fées pacifique parfois célébré, ni l’échec total dénoncé par certains : la révolution des Œillets fut un processus complexe et contradictoire, magistralement incarné par la trajectoire d’Otelo Saraiva de Carvalho. »

Un livre qui arrive à point nommé

Au moment où le Portugal voit prospérer un courant national-populiste révisionniste qui s’interroge sur l’héritage du 25 avril, ce livre arrive à point nommé. Il offre une réflexion nuancée sur ce que fut véritablement la révolution des Œillets : ni le conte de fées pacifique parfois célébré, ni l’échec total dénoncé par certains, mais un processus complexe et contradictoire, incarné magistralement par la trajectoire d’Otelo Saraiva de Carvalho.

Le mérite d’Yves Léonard est d’avoir su tenir ensemble l’histoire et le portrait, le document et l’empathie, la rigueur scientifique et la narration vivante. Une biographie qui dépasse largement son sujet pour devenir une réflexion sur ce que signifie faire une révolution — et sur ce qui reste quand elle s’arrête.

Tigrane Yegavian – Revue Conflits – 21 mai 2026

Lectures de la semaine : Nathan Devers, Marin de Viry, Otelo de Carvalho

Pas d’accord non plus avec « Otelo », le livre qu’Yves Léonard consacre, chez Chandeigne & Lima, à Otelo de Carvalho, âme, voix et ingénieur de la révolution des Œillets, en 1974 et 1975, au Portugal. J’étais là. Je raconterai un jour. Mais j’eus tout loisir d’observer ce Maure, non de Venise, mais de Lisbonne, autour de qui flottait un parfum de drame shakespearien, mais aussi de désinvolture et de fantaisie. Il avait l’air d’un acteur hollywoodien. Son vrai rêve avait d’ailleurs été d’être, non soldat, mais comédien dans un péplum où il aurait joué La Fayette ou George Washington. Voulut-il, comme l’auteur semble le croire, pousser cette révolution plus loin et devenir un Fidel Castro lusitanien ?
Ou était-ce assez pour lui, comme je le pense, d’avoir engendré la première insurrection populaire où l’on mettait une fleur à son fusil et criait, non « À mort! », mais « Vive la Liberté ! ». C’est mon désaccord avec ce livre. Mais quelle joie de voir ressuscitée, sous une plume amicale, cette invention démocratique bousculant tous les schémas conspiratifs dont on pensait que Malaparte avait, à jamais, fixé la technique. Ma jeunesse. Celle de l’Europe. Merci.

Bernard Henri Lévy – Le Point – 8 juin 2026