Dixième numéro de Chemins d’histoire, l’émission d’histoire de Radio Clype, émission réalisée par Margot Leutard, animée par Luc Daireaux

Invitée : Adriana Brandão, docteure en histoire, journaliste à RFI, auteure de Les Brésiliens à Paris, au fil des siècles et des arrondissements

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Émission diffusée le dimanche 24 novembre 2019

 

Livro revela cinco séculos da presença brasileira em Paris

Podcast à écouter ici ! Programme en portugais.

Famosos ou anônimos, os brasileiros que nos últimos cinco séculos marcaram a história do Brasil na capital francesa são os protagonistas do livro “Les Brésiliens à Paris – au fil des siècles et des arrondissements” (‘Os brasileiros em Paris – ao longo dos séculos e dos bairros’, em tradução livre), escrito pela jornalista Adriana Brandão e com lançamento nesta terça-feira (19) na Maison de l’Amérique Latine, em Paris.

As 350 páginas conduzem o leitor a um passeio e um panorama da presença e influência de brasileiros na capital francesa desde o século 16. Publicado pela editora Chandeigne, o livro é o 2° de uma série que tem o objetivo de registrar a presença lusófona na capital francesa.

O primeiro volume foi dedicado aos portugueses, já que Paris é um das metrópoles do mundo que concentra o maior número de descendentes da comunidade, com mais de 1,5 milhão de pessoas. A sequência pelo Brasil foi uma evidência e confirma a importância da contribuição dos brasileiros para a difusão da língua portuguesa, além de atender a um projeto da editora Anne Lima.

“Ficamos impressionadas com a importância da presença brasileira em Paris. Uma presença que não é numerosa como a dos portugueses, mas simbolicamente é muito importante”, destaca Adriana.

O ponto de partida foi transitar pela geografia da cidade para revelar a presença dos brasileiros ao longo da história e pelos 20 arrondissements (bairros) de Paris. “A ideia também era fazer um livro prazeroso, como um guia de viagem histórico, mas com anedotas. Não se queria fazer um dicionário nem uma enciclopédia, seria difícil de ler. O que tentamos foi a cada personagem desenvolver uma história: porque veio para a França, o que fez aqui e o que levou para o Brasil. A ideia era fazer uma leitura mais agradável”, justifica.

Lista extensa

Foram cinco anos de pesquisa para a elaboração do livro. Depois de um levantamento exaustivo de todos os brasileiros importantes, famosos ou anônimos, que passaram pela capital francesa, a jornalista selecionou o que ela e a editora consideraram os mais representativos de uma relação marcada por uma influência e admiração mútuas.

“A ideia não era mostrar apenas os que todos conhecem, mas também mostrar brasileiros que hoje são desconhecidos, que ficaram esquecidos pela história, mas tiveram um papel importante nesta relação franco-brasileira, assim como os anônimos que escolheram a França para viver e também contribuíram para esta relação, apesar de a história deles não ser tão conhecida da historiografia oficial”, conta.

Foram cerca de 300 nomes selecionados na lista inicial, mas nem todos ganharam espaço na obra. “Foi difícil eliminar e falar de todo mundo”, revela a jornalista.

Além das entrevistas e do trabalho jornalístico, o arquivo da Biblioteca Nacional da França foi fundamental para a evolução da pesquisa. Boa parte dos documentos foi encontrada na seção França-Brasil da plataforma digital constituída por meio uma parceria com a Biblioteca Nacional brasileira.

“Como poderia imaginar que eles foram tão numerosos, ao longo dos séculos, esses brasileiros célebres ou desconhecidos que escolheram fixar residência em Paris ou de passar longas temporadas na cidade?”, escreveu o jornalista e escritor francês Gilles Lapouge no prefácio da obra. “Adriana Brandão conta o fascínio que exercem um sobre o outro, desde o século 16 e continuadamente, o Brasil e a França”, acrescentou.

Música “embaixadora”

Dos índios Tupinambá que desembarcaram em Paris no século 16 à inauguração do Jardim Marielle Franco, no mês de setembro, a jornalista revela uma presença constante dos brasileiros em Paris, sejam eles expoentes das artes, história, esporte, política, economia ou ciências.

Um dos aspectos mais ressaltados do livro é a presença da música brasileira que desempenha um papel de “embaixadora do país” na capital francesa, segundo Adriana. Um dos exemplos mais eloquentes é o da música clássica, com Heitor Villa-Lobos.

“Foi da França que ele conseguiu conquistar o mundo. No Brasil, as pessoas diziam que ele era muito folclórico, moderno. Daqui ele teve o reconhecimento, conquistou o mundo e o próprio Brasil”, conta.

Nas diferentes ondas de imigração de brasileiros a Paris, o livro destaca o período em que a cidade acolheu diversos exilados durante os anos de chumbo (1964 -1985). “Paris foi a capital do exílio brasileiro durante a ditadura militar. Mais de 1.500 brasileiros foram acolhidos pelo governo francês”, recorda.

Presença feminina marcante

Um dos aspectos que mais surpreendeu a jornalista durante a fase de elaboração do livro foi a quantidade de mulheres que reforçaram os laços entre os dois países. “A presença feminina foi constante e forte desde o século 19. Muitas precursoras do feminino no Brasil vieram para a França para fugir da sociedade machista e patriarcal brasileira”, comenta.

“A escritora Nísia Floresta é reconhecida e um pouco esquecida. Ela tem vários livros publicados. Ela foi uma das primeiras discípulas positivistas do Augusto Comte e teve um papel muito importante durante a República brasileira”, exemplifica.  “No século 19, a Abigail Andrade, foi uma das primeiras brasileiras a ser reconhecida como artista plástica e passou a viver da arte. A Eufrásia Teixeira Leite, namorada do abolicionista Joaquim Nabuco, sabia lidar com dinheiro. Ela foi uma das primeiras mulheres a investir na Bolsa de Paris. Ela multiplicou a fortuna do pai até o ponto em que seu atestado de óbito está escrito como profissão: milionária”, relata.

O livro, rico em ilustrações e reproduções de fotos e gravuras raras, também revela os locais que mantém registros físico da presença brasileira na cidade, entre eles os dedicados a Santos Dumont, conhecido como “Pai da Aviação”.

Ele foi o que mais deixou marcas na geografia parisiense, segundo a autora. “Foi em Paris que ele fez o primeiro voo homologado do 14 Bis. Tem uma placa falando do Santos Dumont na avenida Champs- Elysées, monumentos e uma rua com o nome do brasileiro”.

“Uma placa também na cidade lembra que o Brasil foi o único país da América do Sul a participar da 1ª Guerra Mundial, com o envio de uma missão médica, que fundou um hospital. Uma placa lembra essa participação”, conta.

Fundada em 1984, a redação brasileira da Rádio França Internacional é citada na obra. “A RFI espelha e reflete essa relação franco-brasileira. A redação é como uma ponte que continua ligando a França e o Brasil”, comenta.

Nas livrarias de toda a França, o livro “Les brésiliens à Paris” ainda não tem previsão de ser lançado no Brasil em uma versão em português.

“Alguns editores já falaram que tem interesse. Espero que seja em breve”, declara a autora.

Elcio Ramalho – RFI Brasil – Novembre 2019

Dans les rues de Paris

Du siège du PCF, place du Colonel-Fabien, dessiné par Oscar Niemeyer (1907-2012), à la plaque apposée sur la façade de l’Hôtel Bedfort, rue de l’Arcade, qui rappelle la mort en ces murs du dernier empereur brésilien, Dom Pedro II (1825-1891), les signes du « compagnonnage heureux » entre la France et le Brésil, comme l’écrit Gilles Lapouge dans sa préface, forment un dense réseau à travers les rues de Paris. La journaliste et historienne Adriana Brandão les recense au fil de cette promenade savante, relevant chaque indice, interprétant les traces, réveillant, là où rien n’apparaît plus, les souvenirs et les archives. Richement illustré, regorgeant de surprises, ce livre passionnant invite à une initiation à l’histoire conjointe du Brésil et de Paris, ville ouverte, carrefour des pays lointains.

Florent Georgesco – Le Monde – Novembre 2019