Alberto Oliveira Martins, « Les carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne » (Chandeigne & Lima)

Les carnets inédits du Portugais Alberto Oliveira Martins racontent sans fioriture mais avec intensité la guerre d’Espagne dans les rangs républicains.

De guerre lasse. Il aurait pu oublier tout cela, mais c’est le sens de son existence qui se serait enfui. Et puis, il y a la dépression qui le ronge, au point de tenter de mettre fin à ses jours. Dans les années 1980, Alberto Oliveira Martins a 70 ans. En 1939, après avoir combattu dans les rangs républicains espagnols, il est interné quelques mois dans un camp du sud de la France puis retourne dans son Portugal sous l’emprise de Salazar. En 1961, il franchit de nouveau la frontière et trouve un emploi dans un hôtel parisien comme veilleur de nuit. Le jour, il repense à ces années de combats. Sur une Remington fatiguée comme lui, il tape en français ses souvenirs, une sorte d’héritage pour ses fils. C’est l’un d’eux, Joaquim, qui fera tout pour que soient publiés ses Carnets.

Ils révèlent l’histoire d’un homme ordinaire confronté à une situation extraordinaire, un homme pas vraiment en paix intérieure, happé par la guerre. Elle se passe chez son voisin, mais il comprend que c’est aussi chez lui. Alberto Oliveira Martins le Portugais s’engage alors dans la guerre d’Espagne, comme des milliers de ses concitoyens. Contrairement à lui, ce fut le plus souvent « du côté des militaires rebelles que du côté des autorités républicaines et antifascistes » précise dans son introduction Victor Pereira, historien à qui l’on doit l’édition de ce texte.

Avant cette guerre, il n’y a pas la paix. Alberto raconte ses premières années, la violence sexuelle exercée par une voisine alors qu’il n’a que 10 ans, sa libido déréglée, la vie de famille qui vacille, la misère, les bagarres, la délinquance, la recherche de petits boulots, en Espagne, en France, puis le bouleversement franquiste. À Saragosse, on lui tend une pétoire, il est enrôlé chez les Républicains. Plus tard, Durruti lui remet son premier fusil et des cartouches avec une accolade : « Quel dommage mon grand ! Tu méritais une mitrailleuse, mais on n’en a pas. » Il restera attaché à la personnalité de l’anarchiste. Les scènes se succèdent à un rythme soutenu, parfois avec une rare violence. « C’était vraiment une guerre civile sans merci. » Alberto est pressé par l’urgence. « Je passe les nuits sans dormir et je trouve fantastique comme je me souviens de choses que j’ai vécues il y a plus de soixante ans. Tout défile dans mon cerveau comme si c’étaient des choses qui s’étaient passées hier. » Il a laissé le passé se déposer comme un limon sur le socle de ses souvenirs, évacuant les rancœurs et les règlements de compte. Mais le fond reste trouble avec des confusions ou des reconstructions mémorielles.

À ses côtés, nous sommes loin d’Orwell ou de Malraux. Pas de symboles, pas d’explications, pas de grandes idées sur la révolution, juste la guerre, haineuse, meurtrière, dans laquelle l’individu s’étiole. Alberto, lui, ne se perd pas. Il suit le mouvement en attendant d’être tué à son tour. En lui, Victor Pereira voit avec raison une sorte de Forrest Gump qui traverse ces scènes de la vie guerrière, l’une de ces vies minuscules qui donnent au passé une épaisseur grandiose.

Laurent Lemire – Livres Hebdo – 7 mai 2026

História inédita de português na Guerra Civil de Espanha publicada em França

Alberto de Oliveira Martins foi um anónimo que se deixou levar pelos ventos da história e que, no final da sua vida, decidiu contar o que viveu com a ajuda de uma velha máquina de escrever que o filho lhe ofereceu. Alberto nasceu em Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, viveu a chegada da ditadura, combateu o franquismo na guerra civil de Espanha, foi preso num campo de internamento em França na Segunda Guerra Mundial e esteve detido nas prisões salazaristas em Portugal. Tudo isso escreveu nas suas memórias no final dos anos 80. Quarenta anos depois, o seu filho, Joaquim, partilhou o texto com o historiador Victor Pereira que foi à procura dos rastos desta história invulgar. O resultado é um livro intitulado “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” [“Os Cadernos de Alberto. Do Porto à Guerra de Espanha”] que vai ser publicado em Maio em França, pela editora Chandeigne & Lima, e sobre o qual estivemos à conversa com Victor Pereira.

RFI: Do que fala o livro “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” ?

Victor Pereira, Autor e historiador: “Há mais de um ano, Joaquim de Oliveira Martins veio ter comigo dizendo que o pai tinha combatido durante a Guerra de Espanha e que tinha combatido na coluna Durruti, uma coluna dirigida pelo próprio Durruti, que foi um dos mais célebres anarquistas espanhóis. Disse-me que o pai dele tinha combatido lá e que no fim da vida, isto é, no fim dos anos 80, ele tinha escrito não propriamente um livro, mas umas Memórias que, depois, ele me emprestou para eu ler. É um relato fantástico de uma vida que começa em 1915 no Porto e cujas Memórias acabam em 1943,1944, quando regressa a Portugal.

O que eu fiz foi convencer – e não foi muito difícil -a Anne Lima da editora Chandeigne & Lima para publicar este texto, que é inédito e há muito poucas obras sobre a participação de portugueses na Guerra de Espanha.  

O que eu fiz foi ir aos arquivos em Portugal, em Espanha e em França para tentar encontrar rastos da vida dele, pensando que ele tinha vivido várias aventuras pouco comuns. Encontrei documentos, nomeadamente no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca, e fui encontrando várias coisas sobre ele. Muitas vezes, eram coisas que não parecem importantes, como recibos de consulados portugueses em Espanha, e fui conseguindo conferir o que ele dizia porque ele escreveu 40, 50 anos depois e a memória distorce um pouco os eventos. Então, o livro é feito das memórias dele e de uma introdução minha que é bastante longa que é uma introdução biográfica com o que eu consegui encontrar nos arquivos nos vários países para compreender o percurso pouco comum dele.”

Há dois textos no mesmo livro: o texto de Alberto de Oliveira Martins, que ele escreveu como testemunho autobiográfico, e a investigação do historiador Vítor Pereira sobre este anónimo…

“É isso mesmo. São dois textos. Começa com o meu, mais ou menos 200 páginas, baseado no texto dele, nos arquivos, nas memórias de pessoas que combateram na Guerra de Espanha. Ele combateu numa frente em Aragão, com milicianos que vinham de Barcelona. Li muitas coisas sobre esse combate à volta de Saragoça, onde ele esteve mais. Depois, ele tem o que aconteceu com milhares de espanhóis quando os republicanos foram perdendo a guerra e houve a Retirada, isto é, a entrada de 475.000 pessoas que atravessaram a fronteira entre a Catalunha espanhola e a francesa. Ele faz parte desse milhares de pessoas e é internado num campo de internamento em França. Depois regressa a Portugal e é preso no Aljube. Então, eu vou também contando a história dele, a história de outras pessoas, nomeadamente portugueses, que combateram na Guerra de Espanha e também das pessoas que foram presas durante os anos 1940, 41 em Portugal – no Aljube e em Caxias. Depois, há o texto dele, que começa na infância até quando ele tem mais ou menos 30 anos.”

A história de Alberto de Oliveira Martins também ilustra um ângulo morto da História? A história dos portugueses que lutaram na guerra civil de Espanha não é uma história muito conhecida, pois não?

“Não é muito conhecida. Foram menos de dez portugueses que escreveram sobre a guerra que eles fizeram e, muitas vezes, são Memórias muito politizadas, o que é bastante normal. Há Memórias de um comunista, há Memórias de um anarquista, alguns textos biográficos de pessoas republicanas. São pessoas mais cultas que contam isto do ponto de vista da mobilização política.”

Pode dizer-nos nomes?

“Por exemplo, o anarquista Manuel Firmo, o comunista Francisco Ferreira, o Jaime Cortesão, o Jaime de Morais. Foram textos que foram publicados desde os anos 70 até há pouco tempo, como o texto de Jaime de Morais que foi publicado pela Cristina Clímaco e Heloísa Paulo. Mas, no caso de Alberto, ele já está em Espanha e é bastante por acaso que ele vai começar a guerra. Então, ele não tem uma visão muito politizada e, por exemplo, quando se compara com outros textos de memórias de espanhóis, franceses ou de outras pessoas que combateram na guerra, eles têm uma visão muito ideológica. Alberto conta muito a vida quotidiana dos combatentes, o esforço para comer não muito mal, as brincadeiras entre soldados, como eles ouviam a rádio. É o relato da guerra por um homem, isto é, ele não faz um grande discurso sobre a guerra, ele conta o seu quotidiano de combatente. Então, são muito poucos os relatos [de portugueses] sobre esta guerra, ainda menos por pessoas não politizadas e que não estão a tentar legitimar o que eles fizeram ou não fizeram. É um relato do quotidiano.”

Na introdução, o Victor Pereira escreve que “ele não parte para Espanha em nome de um ideal antifascista”, mas “é apanhado pela guerra quando já está em Espanha”. Por outro lado, quando está na guerra, ele não faz dos soldados heróis e até fala da confraternização com soldados do campo adversário. Isto vai ao encontro do que acaba de dizer, não é?

“Sim, sim. Muitas vezes há muito essa imagem da Guerra de Espanha que foi uma guerra que mobilizou as opiniões públicas ocidentais em França, Portugal. Na minha introdução, falo sobre como é que a Guerra de Espanha também foi uma guerra quase interna a Portugal. Podemos realçar quando, em Julho de 1937, há uma tentativa de atentado a Salazar que falha e o objectivo das pessoas que tentaram matar Salazar era para tentar enfraquecer o campo nacionalista espanhol porque Salazar foi um grande apoio desde o início aos insurrectos espanhóis e a Franco.

O Alberto de Oliveira Martins não tem essa visão politizada. Por exemplo, há uma parte onde ele escreve que quando começou a guerra civil, havia uma aldeia que estava do lado nacionalista e a aldeia ao lado estava do lado republicano e os combatentes dos dois lados conheciam-se pessoalmente. Por vezes, odiavam-se há vários anos, até há várias décadas, mas o que ele conta é que, por vezes, há jovens soldados que estavam muito perto uns dos outros e o que eles fizeram foram pactos dizendo: ‘Olha, não vamos matar ninguém. Vamos atirar para o ar. Assim, os nossos oficiais pensam que nós estamos a combater’. Às vezes, até falavam uns com os outros e faziam estes pactos de paz muito localizados. Isso não aparece tanto nos outros textos porque o que aparece é uma luta de vida e de morte entre o fascismo e antifascismo. Então, ele foca coisas que muitas vezes não são focadas nas memórias da Guerra de Espanha.”

Mas de que lado lutou Alberto de Oliveira Martins?

“No início, quando ele está em Espanha, ele não tem sorte, como aconteceu a milhares de pessoas. Ele encontra-se num comboio que vai até Saragoça. Saragoça foi tomada pelos militares rebeldes que depois vamos chamar os franquistas. Eles querem imobilizá-lo no campo dos franquistas e ele foge. Algumas semanas depois, ele encontra-se com o próprio Durruti, um dos chefes dos anarquistas que impediu os militares de tomarem o poder em Barcelona. Em 19 e 20 de Julho de 1936 há luta nas ruas de Barcelona, o Durruti e outros camaradas da CNT (do Movimento Anarquista) conseguem domar a tentativa de golpe de Estado e, a partir de 24 de Julho vão milhares de catalães e anarquistas até Saragoça para tentar libertar Saragoça, que tinha sido ocupado pelos militares. Ora, ele estava numa aldeia onde chega o Durruti e o Durruti dá-lhe uma arma e ele vai seguir e vai combater durante quase três anos. A coluna Durruti vai ser uma das mais conhecidas da guerra de Espanha e ele vai combater durante três anos em Aragão, depois na Catalunha. Como é um jovem de 1m80, bastante esperto, bastante ágil, que toda a gente considera que espanhol, ele vai participar em acções de sabotagem no curso de guerrilhas. Então, ele vai combatendo, ainda que ele não tenha ido para combater. Foi a guerra que foi ter com ele. Estando na guerra, ele combate até ao fim, até Janeiro de 1939.”

Temos noção de quantos portugueses participaram nesta Guerra Civil Espanhola?

“Isso é muito difícil. Há, desde os anos 80, alguns estudos, nomeadamente do César Oliveira, também de Cristina Clímaco sobre o exílio português em França e em Espanha. Há vários números, por vezes 500, vai subindo até 2.000, alguns estudos até falam em mais, e estou a falar do lado dos republicanos, aqueles que ajudaram a República espanhola a lutar contra as tropas franquistas.  Muitas vezes fala-se em alguns milhares, 2.000, talvez mais.

Um dos grandes problemas – como no caso do Alberto que nunca é referido como português e o nome dele aparece em castelhano nos arquivos – nas listas de nomes ninguém pode saber se são portugueses. Talvez muitos mais portugueses tenham combatido durante a Guerra de Espanha, mas eram considerados espanhóis e havia antes da guerra mais de 20.000 até 30.000 portugueses que estavam a trabalhar na Galiza, na Extremadura, na Andaluzia, sobretudo. Então, houve provavelmente muitos portugueses que combateram e nós não sabemos.

Depois temos os portugueses que estão em Espanha, os voluntários que foram combater do lado do Franco. São os chamados ‘Viriatos’ e na literatura histórica aparece que foram 8.000, 10.000, alguns até dizem 20.000. Há alguns anos, um militar português, Varela Gomes, disse que provavelmente não eram assim tantos, provavelmente eram 2.500. Por isso, o problema da quantificação é um problema ainda em aberto. Imagino que vão ser precisos muitos anos para saber melhor.”

Falou na busca de de arquivos, na recolha de rastos, de memórias. Eu suponho que tenha sido um processo rico em surpresas. Como é que foi esse percurso que o levou a viajar entre a França, a Espanha e Portugal?

“Então, foi como um detective, como um polícia. Eu tinha o texto dele, eu sabia que ele foi preso duas vezes nos anos 30, em Espanha, que foi expulso uma vez para Portugal em 1934. Eu sabia que ele tinha sido preso pela PVDE, isto é, a polícia política portuguesa antes da PIDE, e a partir daí fui procurando arquivos de documentação. O mais óbvio era o processo dele no arquivo da PIDE, na Torre do Tombo, em Lisboa, o que era um processo complicado no sentido que ele é preso quando regressa a Portugal em 1940 e, obviamente, ele não vai dizer a verdade à polícia política porque se dissesse a verdade seria enviado para o Tarrafal, o campo de internamento que foi criado em 1936 e para onde foram enviados opositores republicanos, opositores comunistas, anarquistas. A partir de 1930 e 1940, todos os portugueses que foram presos e que tinham combatido na Guerra de Espanha foram enviados para o Tarrafal em condições muito difíceis e alguns morreram em Cabo Verde. Então, obviamente que ele mente e, para mim, era uma fonte complicada, porque eu sei à partida que ele vai mentir. O que ele diz nas Memórias permite compreender isto.

Depois, ele conta que em 1932 e 1936 ele vive em Espanha, faz uns biscates, vai mudando muitas vezes de sítio e isso foi uma missão que foi muito demorada. Vi toda a documentação sobre os consulados portugueses em Barcelona, em Sevilha, em Córdoba, em sítios onde eu sabia que ele tinha passado. Para mim, foi uma grande alegria quando, um dia, vendo um conjunto de recibos que eram as ajudas que os consulados portugueses davam a portugueses indigentes ou com poucos meios, reconheci a assinatura dele no recibo! Depois fui vendo vários recibos e, muitas vezes, eram recibos de cinco pesetas, 12 pesetas, o que era bastante pouco dinheiro, mas consegui saber onde ele estava e em que dia.

Em Espanha, estive também no arquivo mais importante para qualquer historiador da Guerra Civil que é o Arquivo de Salamanca, que agora se chama o Centro de Documentação da Memória Histórica de Salamanca. O que se passou é que quando as tropas de Franco chegavam a uma cidade ou a uma aldeia, eles iam logo buscar os arquivos dos sindicatos, dos partidos políticos, das câmaras e quando as câmaras eram de esquerda, republicanas, ficavam com toda a documentação e depois enviavam para Salamanca. Em Salamanca, havia pessoas, muitas vezes militares e outros, que liam toda a documentação e faziam fichas: ‘um tal foi chefe do sindicato da CNT, outro foi socialista e foi presidente da Câmara tal, combateu em tal milícia’.  Fizeram fichas que depois permitiam às forças de repressão do Franco encontrarem as pessoas quando estavam em Espanha, julgá-las, prendê-las e, às vezes, executִá-las. Nós não podemos esquecer que o Franco organizou uma repressão duríssima durante a guerra e, ainda depois da guerra, houve dezenas de milhares de espanhóis que foram mortos. Foi ali que encontrei, por exemplo, as notas da Coluna Durruti sobre os milicianos que eram pagos e encontrei várias vezes o nome dele [Alberto de Oliveira Martins].

Depois fui a Córdoba, onde ele tinha sido preso, fui a Valência e encontrei documentos, em alguns sítios não encontrei nada, mas pelo menos tentei. Ele também esteve em França num campo de internamento e, em França, encontrei algumas coisas sobre o internamento dele.

Muitas vezes, quando se faz uma biografia, faz-se uma biografia de uma pessoa conhecida que deixa muitos documentos ou deixa muitos rastos. Neste caso, foi ter alguma imaginação para encontrar um rasto dele em documentos que podem parecer pouco importantes, mas que se tornaram muito importantes e pertinentes para compreender a trajectória dele.”

Na introdução, fala sobre o texto como “raro e precioso”, “único” até. O que é que este relato de Alberto de Oliveira Martins tem de tão especial para o fascinar ao ponto de lhe dedicar vários meses de investigação?

“Em primeiro, é que temos muito poucos relatos de portugueses que combateram na Guerra de Espanha, apesar da importância que foi a Guerra de Espanha e da importância que teve em Portugal. Só isto é importante.

Depois, o Alberto de Oliveira Martins emigrou para Espanha e quase não conhecemos nada sobre a emigração dos portugueses em Espanha, quando os portugueses, eram 30.000 em 1930. Havia muita emigração temporária, sazonal, de pessoas do Alentejo, do Algarve, que iam para Espanha. É uma coisa que conhecemos muito mal.

Ele também participou numa campanha das vindimas em França em 1934 e eu nunca tinha lido nada sobre portugueses em França nas vindimas.

O que é muito importante é que, muitas vezes, quando conhecemos essa história dos emigrantes ou dos combatentes, muitas vezes temos a visão do Estado quando há pessoas que são presas, julgadas, temos relatos do polícia, do juiz, do cônsul. Para mim era muito rico porque era uma pessoa que falava da vida dele na primeira pessoa. Eu podia saber o que ele pensava, porque é que ele tinha feito isto, tinha feito aquilo. É o que nós chamamos, em História, a história dos subalternos, dos pobres, dos operários, das mulheres pobres, dos migrantes. Temos muito poucos relatos na primeira pessoa porque as pessoas não escrevem e muitas pessoas não sabiam escrever. Este é um caso raro de um português nascido em 1915, que emigra, que combate, que está em França no início da Segunda Guerra Mundial e que é um dos raros a escrever e nós conseguimos ter um rasto desse documento.”

É resgatar a voz histórica de um anónimo?

“Sim, ele é um anónimo e, muitas vezes, a História é feita com reis, rainhas, Salazar, Marcello Caetano, Mário Soares, Álvaro Cunhal. O que me interessou muito foi escrever a vida de um anónimo. Nas minhas próprias investigações sobre a emigração portuguesa em França, eu já tinha visto o nome dele numa lista que eu tinha encontrado no arquivo da PIDE sobre os portugueses presos que se encontravam em campos de concentração em França em 1940. Eu vi dezenas de nomes e quando comecei a leitura apercebi-me que esse nome me dizia qualquer coisa. Para mim é muito importante porque é um anónimo que fala na primeira pessoa. Não são outras pessoas que falam por ele, que escrevem sobre a vida dele. Por isso, foi muito importante para mim, para a editora e para o filho que me deu o texto que nós pudéssemos publicar o texto dele.”

Carina Branco – RFI – 7 abril 2026

Para ouvir a entrevista CLIQUE AQUI. 

Interview de Victor Pereira, historien responsable de l’édition de Les carnets d’Alberto, de Porto à la guerre d’Espagne, par Arthur Silva, dans l’émission Passage à niveau du 20 septembre 2026.

Des Portugais au secours des républicains espagnols

Le témoignage d’Alberto Oliveira constitue une source rare sur l’engagement des Portugais du côté républicain dans la guerre civile espagnole.

L’ouvrage se compose de deux parties. La première, la plus longue, est une remarquable mise en perspective signée par Victor Pereira. Bien plus qu’une simple contextualisation, l’historien confronte le témoignage d’Alberto à tous les documents qui ont pu être retrouvés. C’est le fils d’Alberto, Joaquim (qui signe une postface) qui lui a confié le manuscrit… et quel manuscrit ! Alberto, né en 1915, a quitté le Portugal au début des années 1930. Son témoignage est particulièrement original, car il y décrit la misère et la débrouille au Portugal et en
Espagne au début des années 1930, aussi et surtout parce les Portugais engagés du côté républicain sont peu nombreux. Ensuite parce
que cette participation à la guerre civile espagnole au côté de Durruti tient pour beaucoup du hasard – et l’auteur ne reconstruit pas.
Comme pour la description de la Retirada, elle est brute, sans fioriture, il perçoit les événements de manière décalée à hauteur d’homme sans considération politique réelle. Après quelques temps passés en France, il retourne dans son pays natal. Arrêté par la PIDE en 1940, il est finalement libéré faute de preuves suffisantes, mais demeure un suspect jusqu’à son installation définitive en France en 1964 où il vit jusqu’à sa mort en 1990, sans avoir pris la parole pour témoigner initialement pour ses proches sur cette vie peu commune.

Sylvain Boulouque – Journal L’Ours – septembre 2026

Un Portugais dans la guerre d’Espagne

L’historien Victor Pereira publie grâce au fils d’Alberto Oliveira Martins un témoignage particulièrement original évoquant le Portugal des années 1920, l’Espagne des années 1930, l’engagement aux côtés de la République, l’exil des anciens combattants républicains en France et la dictature de Salazar.

Né au Portugal en 1915, Alberto quitte son pays pour l’Espagne, fuyant un environnement familial hostile. Pendant plusieurs années, il vit dans la misère, vagabonde jusqu’au jour où la guerre civile le surprend. Par hasard, il rejoint les anarchistes de la colonne Durruti, dont il brosse un portrait empreint de sympathie. Alberto combat pendant plusieurs mois. Il décrit la vie quotidienne à échelle humaine, loin des discours et des reconstructions mémorielles. Après la défaite, il franchit les Pyrénées en ayant perdu le contact avec ses camarades et est interné en France, à Septfonds (Tarn-et-Garonne). Si les conditions sont rudes, il ne subit pas le même régime disciplinaire que ceux internés dans le camp du Vernet par exemple. Libéré, il finit par regagner le Portugal, où la police de vigilance et de défense de l’État l’arrête en 1940, puis, n’ayant pas de charges contre lui, finit par le relâcher. Les mémoires d’Alberto évoquent brièvement son deuxième exil français à partir de 1964. Un témoignage rare par la liberté de ton utilisé : il évoque les violences sexuelles que lui a fait subir sa nourrice tout comme sa propre légèreté de mœurs. Craignant qu’il ne s’agisse d’un faux témoignage, Victor Pereira s’est livré à un nombre important de vérifications attestant la véracité du récit. L’historien livre un avant-propos substantiel éclairant d’une belle manière ce parcours exceptionnel.

L’Histoire – 13 octobre 2026